terça-feira, 17 de maio de 2011

Estribeiras porosas

XC

Não há duvida que exista alguma coisas em nós, que não sabemos o nome e que nos deixa completamente cansados das coisas que fazemos durante o dia a dia. Aquela velha conversa sobre rotina, cansaço e afins surge como um pronto socorro de vozes perdidas em meio aos caminhos que não sabemos também quais são.

Há um caminho? Não se sabe. O mais próximo parece o único e evidente.

XCI

Talvez este caminho seja a cegueira denunciada por José Saramago em Ensaio sobre a cegueira, onde o claro para aqueles que não enxergam o palmo mão tem seus destinos traçados desde a tenra infância.

XCII

Diante desta situação, se vejo uma moça passar horas num ônibus apertado e sem condições de trabalho, se vejo um ladrão roubando alguém, se vejo as mínimas condições de vida serem roubadas sem nenhum propósito, eu tenho de ser contra a este assalto dominante, não posso passar indiferente e ver que tudo está tudo bem.

XCII

Somente aqueles que detêm os privilégios de ficar sem preocupações, vivendo uma vida bucólica, parecem ter o direito de não preocupar-se com tais acontecimentos, mas, por outro lado, estes despreocupados são os mais vulneráveis para a cegueira cor de leite denunciada por Saramago. Resta saber, quem é mais cego, aquele que vê, ou aquele que finge ver?

domingo, 6 de março de 2011

Mayakovsky: Um poeta a plenos pulmões


O poeta russo Vladimir Mayakovsky (Владимир Маяковскии) que viveu a revolução bolchevique de 1917 na Rússia, foi um dos grandes poetas de seu tempo. Com versos e composições audazes, iniciou um novo modo de fazer poesia. Escreveu vários poemas para declamação pública, pondo abaixo as tradições literárias da cultura burguesa de seu tempo. Aos poucos, Mayakovsky se iniciava em um novo modo de fazer arte, vinculada ao futuro e as novidades tecnológicas surgidas na sociedade russa.

Nesta época os círculos acadêmicos eram muito comuns entre os russos, os museus e os cafés eram lugares preferidos de debate entre estes. No entanto, não foi este o caminho que o poeta fez. Juntamente com aqueles que desejavam uma nova forma de fazer arte, Mayakovsky abandonou os círculos acadêmicos para ir em direção as praças, ruas e fábricas dos grandes centros urbanos da Rússia Soviética para escrever uma nova poesia que surgia em meio às contraditórias catástrofes de guerras. Clark e Holquist[1], por exemplo, contam que Mayakovsky dormia no assoalho do telégrafo central de Moscou, de modo a estar de prontidão a elaborar cartazes sobre os acontecimentos da revolução.

Já Trotsky, possuía um olhar diferente sobre o poeta. Dizia que em Mayakovsky existia reflexos de um gênio[2] e que ele não era em primeiro lugar um revolucionário e em segundo, um poeta. Era antes de tudo, um poeta, que rejeitou as velhas formas do fazer poético, embora não por completo. Além de poeta, foi ao mesmo tempo, sujeito e vítima das transformações sociais, que, junto com o admirável desejo de se fazer uma nova sociedade e cultura, aproximou-se significativamente dos acontecimentos da insurreição.

Após a revolução de outubro de 1917, Mayakovsky e os demais membros do grupo cubo-futurista se entusiasmaram com os acontecimentos políticos da época e tomaram partido favorável a revolução. O ânimo diante dos novos fatos possuía varias razões. Juntamente com as rupturas político-sociais, surgia no horizonte um novo modo de fazer arte. É nesta época que Mayakovsky escreve “Ode a revolução” e “Marcha de esquerda”, poemas declaradamente revolucionários[3].

Em seus poemas, Mayakovsky tem como característica central o inconformismo diante do cotidiano sufocante, muito bem descrito em 1913 no poema Algum dia você poderia[4]?

Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquas num prato
as maçãs do rosto do oceano.

Nas escamas de um peixe de estanho,
li lábios novos chamando.

E você? Poderia
algum dia
por seu turno tocar um noturno
louco na flauta dos esgotos?

Em seus versos, a metáfora, as imagens, rimas, estrofes e a incansável resistência de não se entregar a vida cotidiana, rotineira, e burocrática, mostra-se como uma constante obsessão do poeta. Foi nesta mesma linha Roman Jacobson interpretou que o suicídio de Mayakovsky já estava posto desde o início de sua poesia. Segundo o lingüista, o poeta preferiu o silêncio ao ser um mero vendedor de versos.

Com a morte de Lênin, Stalin assume o poder e estabelece uma série de regras e normas para a produção artística. Assim como o teórico Bakhtin e outros artistas que foram censurados e acusados de produzir obras subjetivas, Mayakovsky era chamado pelos burocratas Stalinistas de “incompreensível”, pois seus poemas não seguiam as diretrizes oficiais para produção artística. Ou seja, a liberdade poética tanto sonhada pelos artistas com o advento da revolução foi violentamente substituída por manuais burocráticos de conduta que eram impostos goela-abaixo aos artistas, sendo substituída aos poucos pelo realismo socialista. Na esfera política, a oposição comandada por Trotsky sofreu as mesmas conseqüências e cada dia as liberdades antes tanto desejadas, estavam cerceadas.

Mayakovsky preferiu o silêncio ao se entregar a censura oficial. Foi o que fez. Ecolheu deixar a vida em 14 de abril de 1930. Este lutador de palavras, como definiu Trotsky, deixou-nos um legado importante que se tornou inquestionavelmente percussor de um novo futuro, uma nova poesia, brotando a plenos pulmões.

Abaixo, segue o bilhete de suicídio de Mayakovsky,

A todos

De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso.

Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem, este não é o melhor método (não recomendo a ninguém) mas não tenho saída.

Lilia, ame-me.

Ao governo: minha família são Lilia, Brik, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia.

Caso torne a vida delas suportável, obrigado.

Os poemas inacabados entreguem aos Birk, eles saberão o que fazer.

Como dizem:

caso encerrado,

o barco do amor partiu-se na rotina.

Acertei as contas com a vida

inútil a lista

de dores,

desgraças

e magoas mútuas,

Felicidade para quem fica.

Vladimir Maiakovski


[1] Katerina Clark e Michael Holquist. Mikhail Bakhtin. p. 61

[2] Leon Trotsky. O suicídio de Maiakovski.

[3]Boris Schnnaiderman. Dossiê Maiakovski. Cronologia de Maiakovski. Disponível em http://www.apropucsp.org.br/revista/rcc01_r10.htm

[4] Vladimir Maiakovski. Poemas. Tradução de Haroldo de Campos. Ed. Tempo Brasileiro, 1967, p. 53.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dissolução

Era primavera naquela manhã suspensa pelos ares. As coisas se perdiam tão rapidamente, que tudo permanecia ultrapassado. Aqueles homens logo ali na barbearia que fuxicavam a vida alheia das mulheres com estórias de horror e pornografia; estavam loucos de vontade que algumas delas nascessem novamente. Por quê? Ninguém soube explicar tamanho desejo que pra muitos era motivo de desvario.

Não importa o que eles queriam; o fato que acontece com freqüência é o seguinte: na cidade estava ocorrendo um fenômeno que ninguém soube explicar e que até pouco tempo atrás era fruto de esquecimento por parte dos cidadãos. O que acontece? Alguns dizem que a memória do povo aos poucos vai sumindo com o excesso dos causos. Mas como assim? Explique-me melhor! Não sei dizer o que acontece! Vai perguntar pro bispo ora bolas!

A única coisa que sabem é que houve um dia (ninguém sabe que dia foi esse) em que um menino caminhava na rua e de repente começou a ficar atormentado. Gritou “pare, sai daqui, não quero você aqui, sai de mim!”. Ninguém sabia o que era, mas, muitos ficaram assustados com o jeito do menino. Ao notarem o ocorrido, viram que aos poucos muitos andavam brigando com ninguém. Mas o que estava acontecendo de fato então? Não sei, mas o menino estava enlouquecendo, o que aconteceu com ele depois? As pessoas chamaram a ambulância e ele foi levado à força ao hospital. Sabe que foi muito difícil entender aquilo tudo, quer dizer, ainda não sei o que ocorre com aqueles andantes de rua gritando e se rebelando. Por qual motivo, razão ou circunstância acontece todas essas coisas? Não sei, mas fiquei assustado ao ver aquilo tudo acontecer em minha frente.

No outro dia as ruas da cidade estavam completamente vazias, poucas pessoas andavam nas ruas e os arredores pareciam lugares abandonados ao longo do tempo. Tudo era muito estranho, os acontecimentos que ocorriam tão de repente sumiam da mesma forma, e as pessoas ficavam sem saber o que estava acontecendo.

Tudo era estranho.

E permaneceu assim por muito tempo.

Sem explicação.

E novamente, tudo caiu no esquecimento.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Podres poderes

I

Um leilão! Quem paga mais leva. Esta é a novela de Ronaldinho Gaúcho, que segundo os gremistas, é ex-gaúcho. Num país como o Brasil, onde a desigualdade é gritante, onde os deputados aumentam o próprio salário, um jogador de futebol ganhará cerca de um milhão de reais! E ainda por cima, muitos torcedores morrerão de paixão por este jogador que não está nem um pouco preocupado com a situação vigente.

Enquanto este espera o melhor pra si, há um cidadão que se autoproclama filósofo da cidade de São Paulo. Escreve meia dúzia de livros e sai criando polêmicas com todo mundo a fim de ganhar notoriedade com as pessoas.

Que deprimente!

II

Enquanto os podres poderes agitam os pauzinhos em Brasília com suas leis úteis a sociedade, grande parte dos cidadãos anda nos corredores dos ônibus falando em demasia sobre tais acontecimentos. Não percebem que os ônibus estão cada vez vazios de bancos, os corredores são maiores para poder caber todos aqueles que entram nos corredores alargados. Quem já foi a uma fazenda e viu onde os bois ficam, sabe que não há diferença.

O mesmo acontece com os aeroportos, não há lugares para o visitante, somente para uma pessoa, ou seja, para o viajante.

Mais pessoas, menos lugares e mais espaços, em pé.

Como se fosse uma boiada.

III

Uma cena paulistana:

Um trem para na estação e as pessoas nem o esperaram estacionar corretamente na estação para pode abrir a porta. Acotovelam-se umas as outras como se fosse o último dia de suas vidas. Quem cai no chão é motivo de risada e de piadas.

Nesta Babilônia, onde os jardins estão suspensos, cada um por si e deus contra todos parece ser o lema destes cidadãos. O espírito da mão invisível parece ser o mais óbvio entre os que não sabem os motivos de tantos acontecimentos. Os fatos cotidianos dos jornais e revistas que não dizem praticamente nada, não contribuem para o avanço e entendimento desta mão invisível.

E assim, fica sendo, sem sentido.

IV

A geração coca-cola, acostumada a enlatados está cada vez maior. Na literatura é tão comum grandes monopólios que às vezes muitas pessoas lêem determinados livros por indicações de “críticos” literários insensatos. Deste modo, nos acostumamos a ler Dan Brown, Paulo Coelho e coisas afins.

Basta lembrar que grandes escritores tiveram alguns de seus livros recusados: Faulkner que diria!

Seus livros não têm estrelinhas como indicativo de boa ou ruim leitura. Pode ser que nos dias de hoje tenha devido à ausência de “crítica”. O tal do olhar livre, imparcial, nada mais é que uma mentira mercantil que está completamente vinculada ao ato alusivo de comprar o produto para o cliente se deleitar com a mais nova novidade do mercado.

Estes insensatos acorrentam o pensamento por idéias livrescas mercadológicas repletas de miséria, ódio e desigualdade.

Que declínio!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A ignorância de Pondé.

Existem alguns filósofos que querem ser Nietzschianos sem saber como. Criam polêmicas ocas em com pequenos artigos em um jornal pra lá de conservador que restringe até o pensamento de quem o escreve. Em um tempo dominado por esvaziamentos políticos em geral, estes filósofos surgem como a nova onda do momento, escrevendo num jornaleco metido a leitores cults que não sabem de nada! Sem um mínimo de responsabilidade, atacam à direita, à esquerda e todos que aqueles que tentam lutar contra a ordem vigente, posando de radical livre. Mal sabem estes que estão mais presos a ordem das coisas que aqueles ingênuos que criticam tanto. Ah, esses radicais livres que andam na contramão de tudo! Seus comentários repletos de desdém parecem uma espécie de luta contra todos e contra ninguém.

Na maior parte, todos argumentos e críticas destes filósofos são colocados no mesmo saco: o discurso entre o falso e o oposto, demonstra uma má-fé tão conservadora quanto aos jornais que escreve.

Não se pode levar a sério quem faz isso.

Considere o exemplo:

Um homem começou a colocar documentos em seu site, o famoso Wikileaks. Não são simples documentos, ao contrário, alguns denunciam a postura dos Estados Unidos diante do mundo. Pondé escreve na Folha de São Paulo que Assange é um terrorista e o que ele faz nada mais é que uma piada. Além disso, o filósofo diz que a diplomacia brasileira se comporta como estudante comunista. Ora, um sujeito que faz este tipo de comentário, relativizando tudo, não se pode levar a sério.

Pondé pode ter razão somente em um ponto, quando se refere ao dono da Wikileaks como brincalhão de justiceiro. Já que há séculos atrás Montaigne escreveu a celebre frase “mais vale uma cabeça bem feita do que uma cabeça bem cheia”.Pois é impossível acompanhar a imensa quantidade de documentos colocados quase que diariamente. Às vezes, perde-se numa imensidão de arquivos que não levam a lugar nenhum.

Eis o ponto. Assange mistura fofocas diplomáticas com documentos pra lá de comprometedores, no entanto, para o ilustríssimo filósofo Pondé, tudo isso é uma grande besteira que não passa de uma brincadeira de coração de estudante.

Eis a estupidez conservadora que posa de radical livre como colunista da Folha de São Paulo.

Mesmo que a ação de Assange seja fruto de coração de estudante, não podemos ignorar e dizer que tudo isso é uma piada.

Não podemos encarar a postura metida a trágica de Pondé como normal. Seu humor é estranho. Quase impossível de entender...

sábado, 27 de novembro de 2010

Civil War!

Que o Rio de Janeiro está em guerra todos sabem disso há tempos, mas o que grande parte das pessoas ainda não sabem, nem este que escreve o texto, é que este estado sempre esteve em Guerra. Nos últimos dias tornou-se comum ver carros e ônibus serem queimados em plena luz do dia. Tal cena lembrou-me os tempos em que a cidade de São Paulo foi atracada durante dias e o estado tomou uma medida pra lá de polêmica: conversou com os cabeças dos ataques a base de chazinho das cinco e o governador estabeleceu um diálogo como forma de solucionar o crime.

Em meio a tantas imagens de fogo, agora temos uma paisagem que lembra muito de perto a guerra dos Estados Unidos com o Afeganistão. Só que muitos se esqueceram que aqui acontece há muito tempo. Mas, uma questão é certa em meio a tantas notícias: não sabemos o que acontece de fato e ficamos reféns de discursos maniqueístas de canais de TV e jornais que beiram o delírio e a burrice que proclamam a violência desordenada na cidade. Ora, sabemos que esta guerra que andam dizendo por aí merece ser analisada profundamente, mas a simplicidade dos fatos, o show de imagens, a luta entre polícia e bandido faz esquecer o que é preciso discutir de fato efetivamente.

Este discurso medíocre da Mídia traz como resultado o esquecimento a discussão política sobre tais acontecimentos, por outro lado, resgata velhos jargões de uma classe média que só reclama quando seu espaço é violentado pela ambição alheia. Sou da Paz!

Enquanto isso, muitos jovens que não tiveram oportunidades estão sendo mortos nesta “guerra” pelo próprio estado que os negou e que agora diz estar recuperando o território.

Ledo engano!

Sabemos que o buraco é mais em baixo e que tais acontecimentos são frutos de uma política ausente que se omite a discutir o próprio papel do estado nestes locais, onde o tráfico assume a figura destes políticos completamente irresponsáveis, bem como, a ausência do debate sobre a descriminalização das drogas, a ausência de política urbana e a falta de centros de convivência para a juventude que se encontra completamente perdida em escolas públicas falidas.

Tais debates são completamente ignorados, há quem ainda se preocupe com isso. Luiz Eduardo Soares é um grande exemplo, no entanto, o que mais escutamos é o discurso redondamente perdido da classe média: Sou da Paz.

O resultado disso tudo será semelhante aos ataques que o PCC promoveu em São Paulo.

A amnésia da gênesis.



terça-feira, 2 de novembro de 2010

Desafios do Governo Dilma.


O final das eleições foi evidente; o povo preferiu pela continuidade do governo Lula e não o moralismo disfarçado de populismo de Zé Serra. Para o desvario dos Tucanos, grande parte dos Brasileiros resolveu ficar com o cheque passado por Lula, a fim de eleger Dilma Rousseff.

Em meio à multidão de informações sobre a eleição de nossa agora presidenta do Brasil, fiz questão de comprar o Jornal Folha de São Paulo para ler as reações dos jornalistas. Não houve nada de novo, o mesmo discurso de sempre, que nossa democracia está ameaçada, aliás, palavra esta tão malfadada e esvaziada que qualquer conversa em acordo parece ser democrática.

Mas, voltando ao assunto, o jornal Folha de São Paulo escreveu aos seus leitores e em determinados momentos subestimaram nossa inteligência com um discurso que atinge a beira do delírio. A revolta do jornaleco em dizer que Dilma está em torno de partidos fisiológicos demonstra a posição do jornal: a revolta perante a derrota nas urnas.

Dilma deus sinais em seu discurso que irá vergar seu governo para o lado do social-popular. Não será fácil conviver com interesses corporativos dos partidos, famintos de benefícios, com o desejo de realizar as urgentes reformas estruturais que o governo Lula não conseguiu: política, fiscal e agrária. Caso consiga realizar estas reformas, Dilma estará trazendo de volta aos poucos o perfil do PT que ao longo dos anos foi se desgastando.

Estas três questões constituem para o novo governo um desafio a enfrentar.

Além das cobras de plantão.