sábado, 2 de outubro de 2010

Manuscritos Cotidianos

I

Estar sendo, ter sido. Uma afirmação tão cruel e nua de se fazer nos dias de hoje. Quem tem ousadia nos dias de hoje de dizer a verdade e sustentá-la? Muitos preferem ficar na inércia, supondo um bucolismo pequeno burguês de uma vida afastada de responsabilidade.

Que mentalidade é essa?

Pensar que as idéias mudam. Tentar juntá-las ao fardo da compreensão difícil de ter. Tais exercícios só supõem o que se esconde por de baixo dos panos. Se é que se escondem! Mas, estes, que gostam de viver afastado dos movimentos cotidianos, possuem uma fé inabalável que idéias mudam alguma coisa.

Ledo engano. Não sabem o que estão dizendo.

II

Num posto de gasolina, dois homens conversam sobre a situação política brasileira. De repente, um deles diz-me que é necessária ética na política. Digo que não, irritado, pergunta-me o que entendo por ética. Fiquei sem saber o que responder. O moço ficou embaraçado com minha falta de definição, ou talvez, até irritado. Mesmo assim, disse-me várias palavras que no entender dele era Ética.

Quantas palavras usadas para a definição de uma só!

III

A gente fomos à casa de João. Você está louco? Não é assim que se diz! A regra é clara. Diz-se: nós fomos à casa de João. Parece que não sabe usar a norma culta!

Ah, esses puristas da gramática tradicional! Constituíram-se com base em preconceitos sociais o tipo de mentalidade que perpetua na cabeça da maioria das pessoas.

Ainda bem que temos Guimarães Rosa, que faz justamente o contrário destes imbecis lingüísticos!

IV

Deve-se dizer a verdade. Pra quê? Drummond abriu as portas e as deixou em movimento para que todos passassem. Alguns curiosos ficaram sem saber o que estava acontecendo, olharam, olharam e olharam, outros, simplesmente notaram a lacuna e sem pedir licença, entraram. Aqueles que ficaram do lado de fora se questionaram. Como podes entrar desta forma? Existe uma regra? Claro, em todos os lugares existem regras. Então, diga-me porque não usaste tais regras? Já disse, a porta estava aberta e entrei.

Como assim? Que absurdo!Procurarei o responsável.

Isso, se encontrares, não estarei aqui. Pois, minhas palavras já foram ditas. E quem as ouviu? Aqueles que estavam lá. Lá aonde? Não sabes? Não.

Então, ficará sem saber...

V

No trem as pessoas parecem as mesmas. Andam apressadamente, de cabeça baixa, rumo ao seus respectivos destinos. As meninas, com seus cabelos lisos de chapinha, também parecem as mesmas. Loiras alisadas, com fones de ouvido e portando roupas de executivas, na realidade, muitas destas, são atendentes de supermercados.

Ao descer, todos seguem correndo para a baldeação afim de não perder o trem. Outros, permanecem dormindo até a estação final.

VI

Quando voltam pra casa, o sacrilégio continua o mesmo desde cinco da manhã. Esperar o trem, entrar correndo para sentar em algum banco. Todos são os mesmos, cabeça baixa, fones de ouvidos, calças femininas largas, vestimentas de uniforme de executivas, que na realidade não são, e quase todos dormindo.

Em seus lares, um sinal alude o que deve ser feito.

6 comentários:

Marcos S. P. Euzebio disse...

Très bien, mon ami! Petites histoires de tous les temps...

Marco Rodriguéz disse...

Obrigado Marcos pelo Elogio.
Estes manuscritos, vou fazer como uma espécie de um livro sobre estas observações cotidianas. Ou seja, pequenos aspectos da vida menor, das coisas pequenas.
abç!

Gentil disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodrigo Camatta disse...

Olá Marco. Não sabia que vc tinha um blog. Prazer em revê-lo!

Marco Rodriguéz disse...

Valeu cara, visitarei com frequência seu blog.
abraço

dilita disse...

wTambém gostei.
Pequenas histórias? talvez,mas com conteúdo!"com sabôr"...