
(...)

"vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
coxas imberbes & brancas.
vou dilapidar a riqueza de tua
adolescência. vou queimar teus
olhos com ferro em brasa.
vou incinerar teu coração de carne &
de tuas cinzas vou fabricar a
substância enlouquecida das
cartas de amor." (20 Poemas com Brócoli, 1981)
O congresso nacional continua realizando, mesmo em férias, oh! Debates interessantíssimos a sociedade. A novidade desta vez é a questão da Felicidade. Cristovam Buarque, aquele lá, que foi chutado do PT porque fez um planejamento para educação de base e ninguém o levou a sério, a felicidade deve ser um direito do cidadão. Isso mesmo! A felicidade deve ser incluída no artigo 6° da constituição. Outro parlamentar que vai na mesma onda, é o ex-presidente do PT, Ricardo Berzoini. Para o parlamentar, “Felicidade é estar bem com sua família, com seus amigos, com seu país. É sentir que as coisas estão andando bem, que os valores morais e éticos são base para uma sociedade mais justa. É você sentir que faz parte de uma comunidade. Eu sempre valorizo muito o sentimento de pertencimento”. Que piada! Berzoini não sabe que moral e ética não faz parte do vocábulo parlamentar!
Segundo alguns jornalecos que circulam por aí, Cristovam Buarque participa de um movimento chamado Movimento Mais Feliz. Parece até piada, mas é isso mesmo!
A modificação proposta pelo senador se aplica no artigo 6º, que trata dos direitos sociais. Três palavras são acrescidas, estabelecendo que a obtenção dos direitos já ali previstos são “essenciais à busca da felicidade”. Os direitos previstos no artigo 6º são educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância e assistência aos desamparados.
Questionado em suas observações, o senador respondeu, “não estamos colocando a felicidade na Constituição, mas estabelecendo que os direitos ali previstos estão diretamente vinculados à busca dessa condição de felicidade. Ou seja, deixar claro que não há possibilidade de bem-estar para o cidadão que não tenha acesso à saúde ou à educação”. Ah! Estas respostas repletas de polissemias viu!
Talvez fosse interessante a estes parlamentares muito comprometidos com a sociedade, ouvir a música A mulher mais linda do mundo, Odair José, cuja estrofe diz: a felicidade não existe, o que existe na vida, são momentos felizes. Talvez, eles pensem um pouco sobre esta alteração brusca, radical, em uma simples folha de papel.
Esta palavra é apenas o prenúncio desesperado de uma pessoa que perde a visão na cidade. Mas que cegueira é essa, onde as pessoas enxergam uma cor branca de leite e não a negritude da escuridão. Certamente não é uma simples cegueira. Saramago sabe disso.
Vejamos.
Muitos carros nas ruas, o farol amarelo ilumina-se, em seguida, o vermelho. Mal fecha o farol, e as pessoas atravessam desesperadamente a faixa de pedestre, enquanto isso, os motoristas dos carros pisavam sem parar nos aceleradores demonstrando pressa. Ao abrir o sinal verde para os carros, os carros saem rapidamente, quer dizer, nem todos, um permanece no meio do caminho, tal como a pedra de Drummond, aquela lá que já sabemos. As pessoas se irritam com o carro parado, mas ninguém desce do carro para ver o que acontece. Num momento inesperado, um homem desce de seu carro para ver o que acontece com o cidadão.
O que acontece? – Disse o homem.
Estou cego. Respondeu secamente.
Como assim?! Perguntou o homem sem entender a fala do cego.
Ora! Estou cego e não enxergo quase nada.
Após esta fala, o cidadão resolve levar o homem para o hospital mais próximo da cidade. Ao chegar ao hospital, o homem é levado rapidamente ao atendimento e o cidadão caridoso que o socorreu, desaparece.
Ao voltar para a rua, nota que várias pessoas estão com os mesmos sintomas do homem recém internado. Ora essa, o que acontece? Parece que vi há pouco esta cena. Sem saber o que fazer, o homem dá uma andada na rua e vê duas pessoas conversando sobre o fato.
Que cegueira? Sabes do que se trata? Não sei.
Saramago sabe. Vejamos:
“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem.”
Talvez esta cegueira que Saramago nos diz, deva ser a cegueira contemporânea em várias instâncias de nossa sociedade.

“Quando a gente olha para as coisas grandes, a situação política, o aquecimento global, a pobreza do mundo, tudo parece mesmo horrível, nada está melhorando, não há nada de bom para esperar. Mas então eu penso nas coisas pequenas, próximas...sabe como é, uma garota que acabei de conhecer, ou essa música que a gente vai tocar com o Chas, ou brincar na prancha de esquiar na neve, no mês que vem e aí parece ótimo. Então meu lema será este: pense nas coisas pequenas”.
Trecho do livro: Saturday, de Ian McEwan