quinta-feira, 22 de julho de 2010

Rabelais: um espírito libertário.



(...)

Toda a sua vida era empregada não por leis, estatutos ou regras, mas segundo a sua livre e espontânea vontade. Levantavam-se da cama quando muito bem queriam; bebiam, comiam, trabalhavam, dormiam quando lhes dava vontade. Ninguém os acordava, ninguém os obrigava a beber, a comer ou a fazer qualquer outra coisa. Assim estabelecera Gargântua. Em sua regra só havia esta cláusula:
FAZE O QUE QUERES.


*Gargântua e Pantugruel, de François Rabelais. p.230

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Piva: o poeta da transgressão


Depois de Saramago bater as botas, Roberto Piva também bateu outras botas, e, agora resta-nos somente lembranças das tardes na Casa da Palavra em Santo André, na qual o poeta leu inúmeros poemas. Deixo abaixo, um texto de João Silvério Trevisan, publicado na revista de cultura n°38 do ano de 2004.

A arte de transgredir (uma introdução a Roberto Piva)
João Silvério Trevisan

1.

A história pessoal do poeta Roberto Piva começa e gira em torno da cidade de São Paulo. Ele cresceu e formou-se entre a capital e as antigas fazendas do pai, no interior do Estado de São Paulo. Seus primeiros poemas foram publicados em 1961, quando tinha 23 anos. Nessa mesma época, integrou a famosa Antologia dos Novíssimos, de Massao Ohno, na qual se lançaram vários poetas brasileiros iniciantes, que depois desenvolveram uma obra poética de importância. Piva formou-se em sociologia. Sobreviveu em grande parte como professor de estudos sociais e história. Em suas aulas aos adolescentes do segundo grau, costumava trabalhar as matérias a partir de poemas que os fazia ler e interpretar. Foi um professor de muito sucesso, com rara vocação como pedagogo. Nos anos de 1970, tornou-se produtor de shows de rock. Piva mora em São Paulo, cidade que lhe parece apocalíptica, exemplo do que não deve ser feito contra o meio ambiente, mas que forneceu todo o pano de fundo para sua obra poética. Tem medo de avião.

Por isso, raramente se distanciou demais da capital, de onde foge sempre que pode, de ônibus ou carro, sobretudo para o litoral sul do estado de São Paulo, refugiando-se em casa de amigos na Ilha Comprida ou em pensões baratas de Iguape. É lá que realiza seus rituais xamânicos e entra em contato com seu animal xamânico, o gavião.


2.

A genealogia poética de Roberto Piva apresenta raízes e inclui influências muito raras na literatura brasileira, formando uma mistura-fina que é única por sua erudição, mas também por sua transgressão. Começa com Dante Alighieri. Ainda na década de 60, por três anos Piva aprofundou-se nos estudos da Divina Comédia, orientado por Eduardo Bizzarri, adido cultural do Consulado da Itália em São Paulo. Esse contato com Dante foi como seu imprinting poético-filosófico: marcou para sempre sua visão de mundo, sua política e sua poesia.

Ao conhecer os poetas metafísicos ingleses, sobretudo William Blake, Piva começou a aprofundar sua experiência mais direta com o sagrado e a vida interior.

A entrada em cena de Hölderlin e dos poetas expressionistas alemães Gottfried Benn e Georg Trakl temperaram essa experiência com uma ponta de pessimismo, que deixou de ser circunstancial quando, ainda na década de 60, Roberto Piva teve contato com a obra de um filósofo praticamente desconhecido, no Brasil do período: Friedrich Nietzsche.

À experiência juvenil de Piva agregou-se a contundência desse profeta pessimista e decifrador da alma moderna. Mas nem só de espírito, nem só de intelecto fez-se o aprendizado juvenil de Roberto Piva, que cedo descobriu Rimbaud e Lautréamont, recebendo a influência desses dois poetas visionários, que extrapolam os limites da expressão racional e das escolas literárias.

A partir daí iniciou-se em sua vida o cultivo do rimbaudiano “desregramento de todos os sentidos” para se chegar à poesia. Das vanguardas do começo do século 20, Roberto Piva absorveu lições do surrealismo, na vertente francesa de André Breton, Antonin Artaud e René Crevel. É um dos três únicos poetas brasileiros a constar no famoso Dicionário Geral do Surrealismo, publicado na França. A partir de Artaud, Piva incorporou a idéia de que existe um compromisso absoluto entre poesia e vida.

O dito artaudiano “para conhecer minha obra, leia-se minha vida” teve em Piva a contrapartida: “só acredito em poeta experimental que tem vida experimental”. Também é flagrante em sua poesia a influência dos futuristas italianos (com seu culto à fragmentação moderna), acrescida de algumas expressões musicais da contemporaneidade do pós-guerra, através da onipresente marca do jazz e da bossa nova, duas fidelíssimas paixões de Roberto Piva. Mas há mais duas fortes presenças contemporâneas em sua poética. Uma é a beat generation americana, da qual Piva não só absorveu a estilística fragmentada e a temática que aproxima o contemporâneo do arcaico, mas através da qual também sedimentou a orientação basicamente transgressiva dos costumes do seu tempo.

Na década de 70, a transgressão foi reforçada pela descoberta do outsider Pier Paolo Pasolini, protótipo do intelectual-profeta que caminha nas frinchas do paradoxo. Dos poetas brasileiros, essa genealogia poética agregou as figuras de Murilo Mendes - com seu surrealismo intenso, expontâneo e sensorial, ao contrário dos franceses intelectualizados - e Jorge de Lima, sobretudo aquele barroco, visionário e atormentado de “Invenção de Orfeu”. Os elementos finais da construção poética de Roberto Piva evidenciam uma substancial ligação com o aspecto mágico.

Suas constantes caminhadas xamânicas pela represa de Mairiporã e serra da Cantareira, ambas nos arredores de São Paulo, além de Jarinu, no interior do estado, selaram sua ligação sagrada com a natureza.

Essa sacralidade é, para Piva, a única salvação possível ao mundo moderno, que colocou a destruição da natureza como parte do seu projeto consumista. No quadro da recuperação do sagrado e do mágico, enquanto forças da natureza, Piva passou a estudar e praticar o xamanismo. Para aprender o culto ao primitivo e às forças da natureza, foi buscar elementos não apenas em teóricos como Mircea Eliade, mas sobretudo nas culturas indígenas brasileiras e na prática do candomblé. Ele não só cultua seus orixás (Xangô, Yemanjá e Oxum) mas também toca tambor para invocar seu animal xamânico, o gavião.

Paralelamente a essa trajetória em direção ao sagrado, Piva agregou dois elementos ligados à civilização grega. Um: a ingestão de drogas alucinógenas e bebidas libatórias, como formas de atualizar a tradição dionisíaca e a transgressão sagrada do paganismo. Dois: o culto a uma erótica homossexual, resgatando para a modernidade o amor grego, como um componente de transgressão do desejo.

***
Segue abaixo um poema do poeta


"Poema XIV", de 20 Poemas com Brócoli, dedicado ao Carlinhos:


"vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas

coxas imberbes & brancas.

vou dilapidar a riqueza de tua

adolescência. vou queimar teus

olhos com ferro em brasa.

vou incinerar teu coração de carne &

de tuas cinzas vou fabricar a

substância enlouquecida das

cartas de amor." (20 Poemas com Brócoli, 1981)


sexta-feira, 9 de julho de 2010

Felicidade é questão de constituição!



“felicidade não existe, o que existe na vida, são momentos felizes, a gente pode ser feliz, viver a vida sem sofrer, é não pensar no que vai ser, oh! Não me pergunte se amanhã, o nosso amor vai existir, não me pergunte, pois não sei” Musica: A noite mais linda do mundo, Odair José.

O congresso nacional continua realizando, mesmo em férias, oh! Debates interessantíssimos a sociedade. A novidade desta vez é a questão da Felicidade. Cristovam Buarque, aquele lá, que foi chutado do PT porque fez um planejamento para educação de base e ninguém o levou a sério, a felicidade deve ser um direito do cidadão. Isso mesmo! A felicidade deve ser incluída no artigo 6° da constituição. Outro parlamentar que vai na mesma onda, é o ex-presidente do PT, Ricardo Berzoini. Para o parlamentar, “Felicidade é estar bem com sua família, com seus amigos, com seu país. É sentir que as coisas estão andando bem, que os valores morais e éticos são base para uma sociedade mais justa. É você sentir que faz parte de uma comunidade. Eu sempre valorizo muito o sentimento de pertencimento”. Que piada! Berzoini não sabe que moral e ética não faz parte do vocábulo parlamentar!

Segundo alguns jornalecos que circulam por aí, Cristovam Buarque participa de um movimento chamado Movimento Mais Feliz. Parece até piada, mas é isso mesmo!

A modificação proposta pelo senador se aplica no artigo 6º, que trata dos direitos sociais. Três palavras são acrescidas, estabelecendo que a obtenção dos direitos já ali previstos são “essenciais à busca da felicidade”. Os direitos previstos no artigo 6º são educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância e assistência aos desamparados.

Questionado em suas observações, o senador respondeu, “não estamos colocando a felicidade na Constituição, mas estabelecendo que os direitos ali previstos estão diretamente vinculados à busca dessa condição de felicidade. Ou seja, deixar claro que não há possibilidade de bem-estar para o cidadão que não tenha acesso à saúde ou à educação”. Ah! Estas respostas repletas de polissemias viu!

Talvez fosse interessante a estes parlamentares muito comprometidos com a sociedade, ouvir a música A mulher mais linda do mundo, Odair José, cuja estrofe diz: a felicidade não existe, o que existe na vida, são momentos felizes. Talvez, eles pensem um pouco sobre esta alteração brusca, radical, em uma simples folha de papel.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A cegueira de Saramago


Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
(Livro dos conselhos)

Estou cego! Não vejo nada! Onde estão as pessoas? E os carros?

Esta palavra é apenas o prenúncio desesperado de uma pessoa que perde a visão na cidade. Mas que cegueira é essa, onde as pessoas enxergam uma cor branca de leite e não a negritude da escuridão. Certamente não é uma simples cegueira. Saramago sabe disso.

Vejamos.

Muitos carros nas ruas, o farol amarelo ilumina-se, em seguida, o vermelho. Mal fecha o farol, e as pessoas atravessam desesperadamente a faixa de pedestre, enquanto isso, os motoristas dos carros pisavam sem parar nos aceleradores demonstrando pressa. Ao abrir o sinal verde para os carros, os carros saem rapidamente, quer dizer, nem todos, um permanece no meio do caminho, tal como a pedra de Drummond, aquela lá que já sabemos. As pessoas se irritam com o carro parado, mas ninguém desce do carro para ver o que acontece. Num momento inesperado, um homem desce de seu carro para ver o que acontece com o cidadão.

O que acontece? – Disse o homem.

Estou cego. Respondeu secamente.

Como assim?! Perguntou o homem sem entender a fala do cego.

Ora! Estou cego e não enxergo quase nada.

Após esta fala, o cidadão resolve levar o homem para o hospital mais próximo da cidade. Ao chegar ao hospital, o homem é levado rapidamente ao atendimento e o cidadão caridoso que o socorreu, desaparece.

Ao voltar para a rua, nota que várias pessoas estão com os mesmos sintomas do homem recém internado. Ora essa, o que acontece? Parece que vi há pouco esta cena. Sem saber o que fazer, o homem dá uma andada na rua e vê duas pessoas conversando sobre o fato.

Que cegueira? Sabes do que se trata? Não sei.

Saramago sabe. Vejamos:

“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem.”

Talvez esta cegueira que Saramago nos diz, deva ser a cegueira contemporânea em várias instâncias de nossa sociedade.

sábado, 5 de junho de 2010

Um dia vai ser


pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando

*Mosaico de Cida Carvalho
*Poema de Paulo Leminski

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Voar fora da asa


Manoel de Barros é um daqueles poetas que a crítica ignora. Não faz diferença alguma, o poeta não precisa dos comentários daqueles que escrevem para dizer o que é boa e má poesia. Uma das características do poeta é o reuso dos objetos desprezados pelo cotidiano. Alguns de seus poemas levam até mesmo a reflexão sobre o que estamos fazendo aqui em meio a tanta informação. Ao fazer travessuras com a linguagem, Manoel de Barros deve provocar a ira daqueles puristas lingüísticos, tais como Bechara e o Prof. Pasquale. Não importa. Escrevendo em seu idioma, Idioleto manolês archaico, Segundo o poeta: “idioleto é o dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e com as moscas. Fato este que me faz gostar tanto deste poeta, atrapalhando as significâncias.
Eis um poema do poeta.

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo. Dar ao pente funções de não pentear. Até que ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tem idioma.

VII

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O padre falou ainda: Manoel, isso não é doença, pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas-
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.

* BARROS, Manoel. O livro das ignorãnças. Rio de Janeiro. Ed. Record. 1993

sábado, 24 de abril de 2010

O pensar contemporâneo.

“Quando a gente olha para as coisas grandes, a situação política, o aquecimento global, a pobreza do mundo, tudo parece mesmo horrível, nada está melhorando, não há nada de bom para esperar. Mas então eu penso nas coisas pequenas, próximas...sabe como é, uma garota que acabei de conhecer, ou essa música que a gente vai tocar com o Chas, ou brincar na prancha de esquiar na neve, no mês que vem e aí parece ótimo. Então meu lema será este: pense nas coisas pequenas”.

Trecho do livro: Saturday, de Ian McEwan