quinta-feira, 14 de julho de 2011

V

Desde o princípio soube destes acontecimentos, não muito claros, e às vezes escuros, tentava os entender na mais correta circunstância desaparecida. O problema foi que ao invés de encontrar, me perdi, e nada permaneceu dentro deste ser que tenta buscar alguma coisa.

Já sei! Migalhas! Migalhas ao vento!

Talvez esta seja a única resposta que eu tenha dentro de mim, mas não sei se esse eu é tão sério assim. Aquela idéia inicial, repleta de contradições e que todos reclamavam, tentei abandoná-la, mas, ela persiste em me seguir como uma sombra que não desgruda ao menos um segundo.

Saia de mim tentação! Desapareça! Deste jeito, eu não sei se eu estou neste mundo de fato, ou sou apenas uma peça nesta engrenagem enorme que engole milhões todos os dias. Este tormento, de não saber nada, e que de fato às vezes se sabe, o que parece até uma apologia da ignorância, me persegue, e aqueles que estão ao meu lado irritam-se, dizendo que tais confusões são frutos de devaneios que não faz sentido.

Ora bolas, os devaneios não fizeram sentido em muita gente? Por que raios tenho de justificar-me com o alheio? Tenho pouca coisa a oferecer, talvez, em milésimos de segundos elas se mostrem em instantes profundos, em clarões que me fazem entender aqui ou acolá como um todo dentro de mim. Estas coisas desaparecem como nuvem passageira.

Quando um dia souber ao menos aquele milésimo de segundo, verei um monte de coisas confusas e difusas, como o combate ao sofrimento, alegrias e dor. Quando encontrar-me em mim todas estas coisas, não serei mais eu, e as camadas de minha carne, as zonas de dor, os feixes sobrepostos estarão nos recônditos da incerteza de meu grito. Então, procurarei outro problema qualquer, desde que seja para iniciar novamente este ciclo repleto de feixes desfigurados neste interior.

Combaterei tudo novamente! Até as migalhas jogadas ao vento. Não sobrará nada de nada! E assim, aqueles acontecimentos serão grãos de areia desfalecendo em minhas mãos repletas de dor. Até chegar lá, outros lugares estarão abertos e novos clarões serão extensões do que vejo perante os meus olhos. É neste ponto de partida muito curioso e estranho que meu corpo se ilumina, em um doce fardo que se mistura em um monte de componentes aparentemente desconexos que deixam-me incerto de sentir a força dos sentidos das camadas de minha carne, atravessadas em zonas e feixes de dor.

Assim, corro e volto ao mesmo lugar.

*Desenho. Claudionor Rodrigues!

4 comentários:

dilita disse...

Olá Marco!
Continuo a seguir seu blog.

Profundo este tema.
Enorme desassossêgo... mas
muito bonito.
Abraço de Portugal.
Dilita.

Gentil Martins do Santos disse...

Combaterei tudo novamente! (...) E assim, aqueles acontecimentos serão grãos de areia desfalecendo em minhas mãos repletas de dor.
(...)
Até chegar lá, outros lugares estarão abertos e novos clarões serão extensões do que vejo perante os meus olhos. É neste ponto de partida muito curioso e estranho que meu corpo se ilumina, em um doce fardo que se mistura em um monte de componentes aparentemente desconexos que deixam-me incerto de sentir a força dos sentidos das camadas de minha carne, atravessadas em zonas e feixes de dor. Combaterei tudo novamente! (...) E assim, aqueles acontecimentos serão grãos de areia desfalecendo em minhas mãos repletas de dor.
(...)
Até chegar lá, outros lugares estarão abertos e novos clarões serão extensões do que vejo perante os meus olhos. É neste ponto de partida muito curioso e estranho que meu corpo se ilumina, em um doce fardo que se mistura em um monte de componentes aparentemente desconexos que DEIXAM-ME INCERTO DE SENTIR A FORÇA dos sentidos das camadas DE MINHA CARNE, atravessadas em zonas e feixes de dor.

Com calma, amigo

Não, caro Marco, a dor não apenas deixa “incerto”... aquele que sofre, ela retira a força: a alma vai perdendo o vigor. A carne é fraca demais para novos combates, pois, bem visto as coisas, meu amigo, se ainda permanecemos humanos, a dor não cessa... diante de novos combates ele já se encontra em batalha contra seus fantasmas, e, assim, enfrentando,como consequencia mais,e mais, e mais ... as possibilidades de “outros lugares abertos”, num mundo administrado como o presente, são zero... claro, diante do dilema de Hamlet não sobra muita coisa... ainda assim, a vida real é ainda mais complicada.
Mais embaixo, embaixo mesmo, o que você vislumbra como lutador, mesmo com suas migalhas, é idealismo-ideologia de “nobre” que se encontra com o primeiro grau de existência assegurado. Com efeito, o super-homem nietzschiano não é outra coisa. Contudo, sabemos, tal ideia deu no que deu...
De fato, Chauí está com razão quando afirma que não precisamos de heróis... se assim pensarmos estaríamos legitimando a lei da exclusão inclusiva, que é fascista. O capitalismo é assim: OS NOBRES, GUARDIÕES DA ORDEM SUPERIOR, QUE MANTÉM A EXCLUSÃO, PULVERIZAM AS MENTES OS CAMINHOS PARA INCLUSÃO, meros atalhos para anulação do indivíduo, da ordem humana. Humano passa ser aquele que consegue se incluir a raça forte, aos combatentes apesar de tudo...

(gosto de ler seus textos, caro Marco
Abc
Gentil)

Marco Rodriguéz disse...

Gosto de seus comentários Gentil. Me fazem pensar em demasia sobre os textos que escrevo. Pra falar a verdade, escrevi este texto de uma tacada só e nem pensei no resultado. Deu no que deu.
Nunca fiz dessa forma, mas parece que o resultado esteve incorporado em mim...
Grande abs caro Gentil...

Gentil Martins do Santos disse...

Bela "tacada"!
Na verdade, vejo que estai a salvo da leitura ideologica do velho Nietzsche, o que me deixa alegre. Estou falando da vazão ao inconsciente que o filósofo deu... estou, neste caso, seguindo a leitura de Adorno. Ele pensa haver dois Nietzsche...
É tão dificil encontrar uma pessoa sadia hoje, que saiba ser.... por isso gosto dos teus textos
(um texto começa a ganhar vida própria quando é relido por aquele que o escreveu numa perspectiva do leitor - teu texto é nosso, rsrsrs).

Abç, Marco