sábado, 6 de fevereiro de 2010

O vírus Bóris Casoy

Que em determinadas circunstâncias a linguagem é ideológica, sabemos disso. O que não sabemos é que este campo se transformou numa verdadeira arena de luta de classes nos noticiários brasileiros. Nesta batalha semântica, algumas falas determinam posições que lembram até o cheiro do ranço bandeirante que ainda vive na mentalidade escravocrata e aristocrata brasileira. Destacam-se nesta guerra ideológica de palavras o Jornalista Boris Casoy, não por seu jornalismo, ao contrário, por suas concepções que exalam a odiosa mentalidade dos velhos proprietários de terras do Brasil Colônia e o odor das dondocas que tomam chá das cinco nos Jardins da Cidade de São Paulo.
No dia 31/12/09 Boris Casoy apresentou o Jornal da Band, e como pode-se imaginar, fez diversos comentários acerca dos acontecimentos que ele mesmo classifica-os com sua famosa frase:“isto é uma vergonha!”.
Um neopuritanismo bandeirante.
Como sabem, era véspera de ano novo, e os jornais brasileiros adoram explorar a imagem alheia pra ganhar um bocadinho de ibope. Certamente Boris Casoy o conseguiu ao realizar comentários de dois garis que desejavam feliz 2010 aos telespectadores. Para aqueles que não conhecem sua posição, ficou claro ao dizer: “Que merda...Dois lixeiros desejando felicidades... Do alto de suas vassouras... Dois lixeiros... O mais baixo da escala do trabalho”.
(...)
Percebendo seu erro ao deixar o microfone ligado, no dia seguinte o jornalista pede desculpas: “Ontem, durante o programa, eu disse uma frase infeliz que ofendeu os garis. Eu peço profundas desculpas aos garis e a todos os telespectadores”.
Como pode-se notar, as declarações do jornalista refletem a formação de uma mentalidade odiosa que jamais foi banida desde os tempos de Pombal. Ou pior ainda, as desculpas de Boris Casoy, não foram feitas por compaixão, caridade ou dó, mas por causa do “vazamento de informações”. Sua postura conservadora, direitista e reacionária, apenas demonstrou as marcas predominantes de uma sociedade colonial, onde as relações sociais são realizadas entre um que manda e outro que obedece. Esta relação jamais banida, demonstra fortemente a verticalização desta em vários aspectos. A fala deste jornalista foi apenas a confirmação de uma mentalidade odiosa que custa a predominar em nossa sociedade.
Isto sim, é uma vergonha!


*Imagem: Lattuf 2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Josué de Castro e a Geografia da Fome.

“O maior absurdo de nossa sociedade é termos deixado morrer centenas de milhões de indivíduos de fome num mundo com capacidade quase infinita de aumento de sua produção e que dispõe de recursos técnicos adequados à realização desse aumento” (Josué de Castro)

Josué de Castro foi um brasileiro que, ainda jovem, se sensibilizou com o problema da fome e a desnutrição de seus conterrâneos que viviam no mangue, em Recife. Neste lugar, os retirantes que fugiam da seca, capturavam os caranguejos na lama para se alimentar. Josué de Castro percebeu a partir deste fenômeno, que a fome era um problema eminentemente político.
Graduado em medicina, começou a clinicar no Recife, onde conheceu de perto a extrema pobreza que assolava os habitantes de sua cidade. Percebeu que as conseqüências biológicas da fome resultavam em péssimas condições de vida que eram impostas as camadas mais pobres da população. Para demonstrar suas observações, escreveu o livro As condições de Vida das Classes Operárias no Recife.
Longe de ser um mero observador da realidade vivida, Josué de Castro contribuiu efetivamente na tentativa de minimizar os problemas da fome. Infelizmente o problema está longe de ser erradicado, mas seus estudos demonstraram que a fome é um fenômeno social, criado por certos tipos de homens.
Josué de Castro não falava somente da fome de comida, mas também da fome de saber, conhecimento e sobretudo, liberdade. É por isso que sua obra é extremamente atual em nosso Brasil arcaico, cujas raízes autoritárias que tanto denunciou, ainda permanecem inalteradas.
Chico Science, ex-vocalista da banda Nação Zumbi fez referências a Josué de Castro ao denunciar as desgraças sociais do Recife na música Da lama ao caos, “O Josué eu nunca vi tamanha desgraça. Quanto mais miséria tem mais urubu ameaça”.
Sua obra prima é Geografia da fome, na qual estuda os diversos fatores das causas da fome no Brasil. Esta obra é um importante referencial para quem deseja conhecer as diversas facetas da desigualdade social do Brasil.
Ao se referir sobre a questão da fome, escreve Josué de Castro:

Está provado que a natureza não é mesquinha e que seus recursos são mais do que suficientes para alimentar bem todo o efetivo humano por longos anos a vir. Quem tem sido mesquinha é a condição humana, ou melhor, a condição desumana de nossa civilização.

O problema da fome não é novo, mas a perspectiva pela qual se percebe a trágica realidade. Geografia da fome é um importante instrumento para conhecer as diversas formas da fome, cujo absurdo de nossa sociedade é deixar morrer centenas de milhões de indivíduos de fome, num mundo com capacidade quase que infinitas de recursos técnicos adequados a realização desse aumento.
* Imagem: A.R. Florim

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Senhor soberano

Muito honrado ao senhor soberano, envio-lhe esta carta dizendo tudo que o senhor prometeu, não aconteceu. Do que se pensou em fazer, nada foi feito. Que o alvo das críticas, às vezes irrefutáveis, continuam na mesma. Que os que pedem por ajuda continuam na ajuda. Que os que denunciam esta bandalheira, ainda são, bandalheiros.
(...)
A sociedade que o senhor disse mudar, não mudou, mas alguma coisa aconteceu meu caro senhor; está tudo tão diferente!
A solução de seus problemas, o paraíso fiscal, os castelos feitos, os dinheiros nas malas, cuecas, que vão sumindo aos nossos olhos, continuam muito bem como a droga da deliquência sem solução.
Pura oratória!
Seu Estado deve ser Eldorado.
E o nosso, retardado e demandado.
É a premência da vida.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Dinheiro, cuecas e afins.

O governador de Brasília deve estar de cabeça quente. Ou talvez não. Depois do escândalo envolvendo dinheiro, cuecas, meias e afins, seu partido político ficou numa saia justa. O DEM (Dinheiro em meias, Deu em Merda) ficou de analisar o caso e decidir o futuro de Arruda com a cínica justificativa de prestar contas a sociedade. A questão que fica posta para nós reles cidadãos que apenas presenciamos tudo de longe é: que fazer diante de tanta corrupção?
A pergunta é mais do que batida e óbvia. Isto é sinal que este acontecimento já é tido como normal para alguns. Enquanto Arruda segue tranqüilo em seu governo, manifestações se espalham em algumas regiões de Brasília e o que acontece quando há amostras de alguns indignados com a situação vigente é justamente o revés do que deveria ser feito com aqueles que cometem crimes. Ou seja, os indignados que protestam contra a corrupção, e que segundo Arruda impedem o direito de ir e vir dos cidadãos, devem ser repreendidos. Como disse Arnaldo Jabor, a justiça além de ser cega é paralitica. Deve ser por isso que ocorrem com tanta freqüência estes acontecimentos.
Uma coisa é certa: se um destes políticos for assaltado, não diremos “mãos ao alto!” ao contrário, devemos dizer “abaixe as meias e as cuecas!”.
Talvez ali se encontre a origem da corrupção!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Os deveres e a poesia

(...) Tinha pensado que a vida era um mar de rosas quando criança. Com o passar dos tempos, o crescimento e as responsabilidades, notei que as coisas que estavam ao meu redor não eram frutos repletos de fantasia. Ao contrário, comecei a compreender as angústias de meus pais brigando por coisas que no começo de minha vida não faziam sentido e as julgava como tolas. Hoje, vejo que é exatamente ao contrário. Aquela vida vivida nos primeiros anos nada mais era que uma obra construída arduamente pelos míseros capitais guardados nos bolsos furados de meus pais. Compreendi que os deveres de casa eram prioridade para a sobrevivência cotidiana do pão nosso de cada dia, e aquele muindo repleto de ilusão aproximava-se mais d'uma alegoria do bovarismo do que a concretude das coisas, que se esfacelou até a percepção de que a vida é tão rara e a conquista não é feita tal como pensam os poetas. Opostamente a isso, não havia lugar para poesia em casa, cuja premência da vida é a categoria primeira. Meus pais ficavam loucos da vida ao tentar buscar uma vida inexistente, mas não compreendiam que a dificuldade de se fazer um movimento tão pretensioso como esse, era tensão pura entre o abuso e o esgotamento de si mesmo.
A parti daí, o mundo surgiu doente e o espanto já não era surpresa.
E assim ficou sendo...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pensar?

Vivemos um tempo em que vários autores, políticos, jornalistas, educadores e bicudos em geral, nomeiam a atual sociedade em que vivemos de sociedade do conhecimento, a qual conota o triunfo intelectual sobre um espaço físico, num tempo em que muitas pessoas falam em auto-reflexão para alterarem os processos de trabalho, bem como, suas trajetórias de vida.
A questão é que nesta mesma sociedade que proclama por pensamento e auto-reflexão, os determinantes da alienação são muitos e fazem com que a maioria da população mundial não tenha condições sequer para pensar por variadas razões: porque estão subnutridos para terem condições necessárias para pensar, porque vivem num cotidiano que lhes sufoca esta condição privilegiada, porque na sociedade do consumo, pensar é considerado um desperdício e finalmente, porque muitos acreditam que os meios de comunicação e as elites culturais pensam por nós tudo o que tem de pensar.
Devemos desconfiar daqueles que pensam por nós. Nesta sociedade que proclama auto-reflexão, há uma grande capacidade de refração da realidade, ou mesmo, da disponibilidade de pensamentos que destroem também milhares de vidas, bem como, sua qualidade e felicidade. Vivemos num mundo onde as pessoas trabalham demais e vivem constantemente esgotadas por excesso de trabalho. Ou seja, o tal do bem estar social que muitos falam por aí, nas grandes metrópoles é conquistado à base de fortes doses de medicalização. Não é a toa que temos presenciado um significativo aumento em antidepressivos e de demais remédios...
Por isso, devemos desconfiar daqueles que supostamente querem pensar por nós. Nos dias de hoje, o pensamento está estritamente atrelado a interesses, sejam minoritários, ou dos poderosos que avaliam a sociedade. Nestes pensamentos, há inúmeros que promovem o conformismo (a aceitação do que existe) o situacionismo (a celebração do que existe) e o cinismo (o conformismo com má consciência).
Por isso, é preciso agir e sentir porque o pensamento só é útil a quem não fica somente no pensar. Aqueles que se atribuem de pensar, passam a vida a conversar com mortos. A mesma morte que está dentro deles.
Este é o mundo contemporâneo: exige que pensemos, mas priva-nos das condições para pensar...

domingo, 18 de outubro de 2009

Trabalho

Descansar e não pensar em nada! Tarefa não muito simples nos dias de hoje, cuja correria em premência da vida é mais válida que a própria vida. O capital com sua espetacular velocidade fez com que as pessoas se debruçassem fecundamente em busca de mais tempo, tempo para trabalhar, ganhar dinheiro, acumular e gastar e destruir. No entanto, este tempo contemporâneo, pós-moderno, industrial e controlado impreterivelmente pelo relógio, se depara com uma série de acontecimentos em que nós sujeitos, administrados por demais as nossas responsabilidades cotidianas, tornamo-nos quase cegos para a própria vida. Ou seja, nas grandes metrópoles, ela é marcada pela velocidade em que giram as tecnologias e neste sentido, as pessoas precisam acompanhar estes movimentos efêmeros que nos empobrecem como seres humanos. Esta é a lógica do Capital que para Marx nada mais passa de “trabalho morto que, como vampiro, somente vive sugando trabalho vivo, e vive mais quanto mais trabalho vivo suga[i].”
Esta lógica do capital possui efeitos devastadores nas pessoas, não é a toa que nos dias de hoje existe uma grande quantia de pessoas doentes por causa do trabalho. Tarefas exaustivas, compromissos a cumprir, vida regrada ao extremo, tudo isso, transformam as pessoas em seres entificados, coisificados, o que realmente demonstra a baixa qualidade de vida que os urbanos levam.
Bertrand Russel refletiu acerca do problema dizendo que “as pessoas trabalham demais hoje em dia” esta frase além de reveladora, traduz perfeitamente a condição do homem contemporâneo. Pois, a partir do momento em que o homem deixou de trabalhar para viver, e passou a condição contrária, houve uma queda exorbitante na capacidade criativa do indivíduo, que, nos dias de hoje é difícil ver alguém que faça realmente as coisas que goste e no tempo em que desejaria fazê-las.. Ou seja, o controle a partir do trabalho sobre o indivíduo aniquilou-o da possibilidade que ultrapassassem o mundo do trabalho, restringiu-o apenas a sobrevivência cotidiana. Neste sentido, a condição humana enfraqueceu-se devido aos tempos diários que os homens têm a cumprir.
Esta é a condição do homem contemporâneo. Sem tempo para viver.
Apenas para sobreviver.
Desta forma é que o Capital avança cada vez mais propondo sua lógica alienante nos indivíduos. As pessoas vivem para trabalhar, para poder realizar seus fetiches; contribuindo sumariamente para a expansão de mercados exploradores da vida humana.
Por sua vez, aqueles que trabalham, só merecem descanso após meses de jornadas exaustivas. Aqueles que não trabalham, são vistos como vagabundos. Esta é a sociedade dos dias de hoje, em que o trabalho tornou-se essência do homem.















[i] Marx, Karl. O Capital, livro I, A jornada de trabalho, p.247